26
jun
As Ninfas da Mitologia Greco-Romana
em: Cultura

Uma das mais famosas mitologias é a greco-romana, conhecida por seus deuses luxuriosos, seus heróis épicos e por seus mitos que recontam a origem Terra. Além dos deuses e semideuses, existem outras figuras da mitologia que são amplamente difundidas, como é o caso das sereias, mas hoje eu vou falar das Ninfas. As ninfas são espíritos femininos ligados a um aspecto específico da natureza e muitas compõem a genealogia dos deuses. Embora não fossem imortais, possuíam a vida muito longa e não envelheciam. Desta maneira, também eram cultuadas e temidas pelos mortais.

Por Paul François

Por Paul François

Como espíritos da natureza, existiam grupo de ninfas das colinas, campos cultivados, cavernas, flores, bosques e diversas outros, incluindo as ninfas das águas. As ninfas que representam as águas são:

  • Oceânides: das águas do oceano;
  • Nereidas: das águas dos mares;
  • iades: das águas das fontes.

Na mitologia grega, essas três figuras representavam a juventude eterna e protegiam quem se banhasse nas suas águas, além de conceder fertilidade quem bebesse das suas fontes.

AS OCEÂNIDES

Na mitologia greco-romana, as ninfas Oceânides são filhas do titã Oceano com a titânide Tétis. Eles eram irmãos e deuses primitivos da mitologia grega. Enquanto Oceano personificava os oceanos, Tétis era a deusa dos aquíferos subterrâneos, ela quem deu origem a todas as fontes, nascentes e rios presentes no mundo. Suas filhas oceânides são coroadas com flores e acompanham o seu cortejo. Tétis se locomovia em uma concha de marfim.

Poseidon, Oceano e Tétis

Poseidon, Oceano e Tétis

As Oceânides são as ninfas do fundo de águas inacessíveis. Embora descritas pelo poeta Hesiodo como responsáveis por alguns fenômenos marítimos, elas também tinham algumas características individuais como Métis, que representava a astúcia. Os poetas mencionam que Tétis e Oceano geraram 3 mil Oceânides. Algumas dessas ninfas das profundezas marítimas se destacaram e estão na genealogia de nomes famosos da mitologia grega:

  • Métis: Conhecida como a mais célebre das oceânides, foi a primeira esposa de Zeus. Ao saber que ela estava destinada a gerar um filho poderoso e uma filha astuta, Zeus engoliu Métis viva. A ninfa já estava grávida e posteriormente, da cabeça de Zeus, nasceu a deusa Atena já adulta e armada para guerra.
  • Eurínome: Teve com Zeus três filhas, conhecida como as três graças. As três graças foram uma grande inspiração da arte renascentista. Elas fazem parte do cortejo da deusa Afrodite.
  • Clímene: Com o titã Jápeto, gerou a segunda geração de titãs Epimeteu (marido de Pandora), Prometeu (roubou o fogo dos deuses), Atlas (sustenta os céus nos ombros) e Menoécio.
  • Dóris: Dóris é a oceânide que dá continuidade a próxima categoria de ninfas: as Nereidas. Ela se casou com Nereu, “o idoso do mar”, e tiveram 50 filhas (Nereidas) e um único filho homem, Nérites. Nérites foi o primeiro amor de Afrodite antes dela subir ao monte Olimpo. Ela chegou a convidá-lo para ir com ela, mas ele recusou, despertando a fúria da deusa que o transformou em um molusco do mar. Juntos, Dóris, Nereu e as Nereidas compartilhavam as águas do mar Egeu.
  • Dione: Existem duas versões da história da Dione, que identificam o surgimento de Afrodite. Em uma delas, Dione é a deusa das ninfas e Zeus se apaixona por ela. Desta relação nasceu a deusa Afrodite, deusa do amor e da beleza. Quando Dione é retratada apenas como oceânide, o surgimento de Afrodite é atribuído a castração de Urano. Cronos teria cortado as genitais de seu pai e atirado ao mar. Essa ação teria fecundado Tálassa, personificação do mar, e dessa espuma originou-se Afrodite. Como as duas histórias são amplamente aceitas, os gregos solucionaram o caso oficializando as duas Afrodites. A Afrodite Urânia, que representa o amor celestial, divino e de corpo e alma. A Afrodite Pandemos é a filha de Zeus e Dione, representa o amor físico e desejos lascivos. O nascimento da Afrodite Urânia, correspondente romana de Vênus, é retratado em um dos quadros mais icônicos: O Nascimento de Vênus.
As três graças em detalhe no quadro Primavera de Botticelli

As três graças em detalhe no quadro Primavera de Botticelli

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Talassa, personificação do mar

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Nascimento de Vênus por Botticelli

AS NEREIDAS

As Nereidas eram belas ninfas do mar, conhecidas por serem gentis, ajudarem os marinheiros e por conquistar o coração dos homens. Filhas de Nereu, um deus marinho. Elas se locomoviam em golfinhos ou em cavalos marinhos e trazem a mão um tridente, uma coroa ou pedaço de coral. Existem representação de Nereidas como sereias. A única história envolvendo Nereidas na qual elas acabam prejudicando alguém é o sacrifício de Andrômeda. A mãe de Andrômeda se gabou de ter uma filha mais bela que as Nereidas. Inconformadas com a arrogância da mortal, as Nereidas pediram a Poseidon que tomasse uma providência. O deus exigiu que o rei da Etiópia, pai de Andrômeda, sacrificasse a filha a um monstro marinho. O rei acorrentou a filha em um rochedo, para o monstro do marinho Ceto, mas a jovem foi salva por Perseu, com quem se casou.

nereidas_por_gustavodore

Por Gustavo Doré

As três Nereidas mais famosas são: Galatéia, Tétis e Anfitrite.

Galatéia muitas vezes é confundida com a musa de Pigmalião, o escultor que se apaixonou pela sua estátua e pediu a Afrodite que de desse vida a sua criação. Mas a história da Nereida também é bem famosa. Galatéia se apaixonou pelo belo Ácis, filho do deus Pã com uma ninfa. Mas sua beleza também encantou o ciclope Polifemo, filho de Poseidon. Uma tarde, o ciclope encontrou o casal repousando pelo mar e perseguiu Ácis até conseguir esmagá-lo com uma pedra. Galatéia reviveu seu amado convertendo-o em um rio de águas claras e se atirou ao mar indo viver nas ondas. Galatéia costumava andar em uma carruagem de concha puxada por golfinhos e foi assim retratada em um afresco.

Triunfo de Galateia por Rafael Sanzio

Triunfo de Galatéia por Rafael Sanzio

Tétis era a mais bela das Nereidas. Na nossa língua é confundida com a sua avó Titanite, mas a escrita grega é diferente. Ela foi criada por Hera e a deusa tinha grande gratidão pela Nereida ter recolhido e cuidado do seu filho Hefesto, que foi atirado ao mar por ter nascido deficiente. Os encantos de Tétis, chamaram a atenção de Zeus e Poseidon. Tétis era muito fiel a deusa Hera, e nunca cedeu às investidas de Zeus. Uma profecia dizia que Tétis teria um filho ainda maior que seu pai. Assim, Zeus apressou-se em casar Tétis com um mortal para evitar que a Nereida desse a luz a alguém mais poderoso que os deuses. Da união de Tétis e Peleu, nasceu o herói da guerra de Tróia, Aquiles. Quando Aquiles nasceu, Tétis o mergulhou no rio Estige com a intenção de sumir com seu lado mortal. Deixou vulnerável apenas o calcanhar pelo qual o segurava, e assim surgiu a expressão calcanhar de Aquiles. Foi também no casamento de Tétis que se inicia o mito da guerra de Tróia. Éris, a deusa da discórdia, não foi convidada para o casamento da Nereida e jogou “o pomo da mais bela” na festa. As três deusas mais poderosas, Atena, Afrodite e Hera disputaram o título e para julgar, os deuses escolheram o jovem Páris, que escolheu Afrodite em troca do amor de Helena.

Tétis e Aquiles por Peter Paul

Tétis e Aquiles por Peter Paul

Já Anfitrite é a esposa de Poseidon. A princípio, recusou as investidas do deus dos mares, pois ele havia sido rude com ela. Ela se escondeu durante um ano em uma caverna e apenas a sua mãe, Dóris, sabia o seu paradeiro. Zeus procurou a oceânide para descobrir o paradeiro de Anfitrite, pois o irmão estava desolado. Anfitrite acabou se casando com Poseidon e é conhecida como a soberana dos oceanos. Foi também desta relação que surgiu o deus marinho Tritão. Atribui-se a Tritão a representação masculina de uma sereia. Ele era muito fiel aos interesses de seu pai. Na cultura popular, ele é ninguém menos que o pai de Ariel. Anfitrite, assim como Hera, sofria as mais variadas traições, mas ao contrário da deusa, ela não se importava.

Anfitrite e Poseidon por Jacob Gheynll

Anfitrite e Poseidon por Jacob Gheynll

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Triunfo de Anfitrite por Hugues Taraval

AS NÁIADES

Por fim, temos as ninfas das fontes chamadas de Náiades. Elas possuíam o dom da cura, profecia e deixavam os humanos beberem de suas águas, mas jamais poderiam se banhar. Os infratores eram penalizados com amnésia, doenças e até mesmo a morte. Também possuíam certos poderes sobre as águas. Há divergência da genealogia das Náiades, mas na Ilíada de Homero atribui como genitor Zeus. Há poetas que atribuem a origem das Náiades ao Oceano. As Náiades também são associadas às sereias por possuírem uma bela voz.

Há cinco tipos de Náiades:

  • Crineias: Habitam as fontes;
  • Limnátides (ou limneidas):  Habitam os lagos;
  • Pegeias: Habitam as nascentes;
  • Potâmides: Habitam os rios;
  • Eleionomae: Habitam os pântanos.
Por John William

Por John William

As Náiades dos rios, Potâmites, atraíram o herói Hylas para as águas durante a expedição dos argonautas. Hércules (Héracles) foi atrás de Hylas e o navio partiu sem ele. Entre as ninfas dos lagos, destacou-se Salmácis, que se apaixonou pelo Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite, enquanto ele se banhava em suas águas. Salmacis o agarrou e pediu aos deuses para que nunca mais se separassem. Atendendo o pedido da Náiade, os deuses uniram a ninfa ao rapaz, transformando Hermafrodito em um ser andrógino, homem e mulher.

A mitologia grega é por muitas vezes confusas e uma coisa acaba levando a outra. Eu tentei focar nas ninfas para mostrar como as protetoras das águas estão nos bastidores, e muitas vezes, no centro de grandes mitos.

Por Camila Piccini










9
jun
A lua e o mar…

Todo mundo que foi criança nos anos 90 sabe pelo menos uma música da dupla Sandy e Júnior. Entre as mais famosas, o grande sucesso da virada do milênio foi A Lenda. A música foi um sucesso (e ainda é até hoje), ganhou prêmios de Melhor Videoclipe e ainda ficou no topo das paradas. Ela narra a história de amor entre a Lua e o Mar:

Bem lá no céu uma lua existe

Vivendo só no seu mundo triste

O seu olhar sobre a Terra lançou

E veio procurando por amor

Então o mar frio e sem carinho

Também cansou de ficar sozinho

Sentiu na pele aquele brilho tocar

E pela lua foi se apaixonar

Mas qual a relação entre a Lua e o Mar? A música não é a primeira história de amor sobre os dois. Existem algumas histórias envolvendo a lua, o mar e até mesmo sereias. Uma delas é uma lenda indígena que narra o surgimento do firmamento, oriundo do amor entre a Lua e o Mar.

“Contam os antigos que há muitos e muitos anos atrás, mais ou menos pela época do surgimento do universo, ainda naquele tempo de transformações e criação, existiam dois índios completamente apaixonados um pelo outro: o Mar e a Lua. Mar e Lua tinham um amor tão intenso que era reconhecido nos quatro cantos do universo, por onde os homens andavam ouvia-se falar no amor de Mar e Lua.

Certa vez, o Mar, embriagado de amor por Lua, desafiou Tupã ao proferir que Lua, sua amada, gostava muito mais dele do que do próprio Tupã. Deus, ao saber das bravatas de Mar, resolveu lhe dar uma lição transformando-se num moço de infinita beleza denominado Sol, vindo a terra provocar o Mar em seu amor por Lua.

O Sol chegou vestido de luz e ao se aproximar de Lua, foi vítima do seu próprio veneno: ao se defrontar com a Índia apaixonou-se loucamente por ela, que possuía uma rara beleza. Desta forma, Tupã começou a deixar várias vezes o céu e descer à terra vestido de sol para cortejar Lua, que também sentiu-se atraída pelo jovem Sol, que transmitia uma luz tão intensa que iluminava e aquecia o seu coração.

Com o passar do tempo, o triângulo amoroso vivido pela Lua, Sol e Mar ficou incontrolável. As amigas de lua começaram a assuntar sobre quem era o formoso rapaz que cortejava Lua vestido de luz e qual a reação de Mar pela presença de tão garboso oponente.

Lua, ao pressentir o perigo, começou a ignorar Sol, sem saber que ele era o próprio Deus Tupã. Quanto mais a Lua ignorava o Sol, mais ele se apaixonava por ela.

Até que um dia, Tupã insatisfeito com o amor de Lua por Sol pensou: “Como pode ela amar tanto um simples mortal e desprezar eu, o mais belo dos homens, o reflexo humano de um Deus?”. Contrariado ele usou de seu poder para induzir as amigas de Lua a contarem ao Mar o que estava se sucedendo. O desgosto foi tão grande que o mesmo resolveu enfrentar o forasteiro e sua amada frente a frente. Naquele instante entre a criação e o firmamento estava frente a frente Sol, Lua e Mar. Lua declarou seu amor a Mar na frente de Sol.

Ao ver nos olhos da amada o desprezo, o Sol enfurecido usou mais uma vez, o seu poder transformando sua rainha amada em um dos mais belos astros do sistema solar, entretanto a bela necessitaria eternamente da luz do sol para brilhar e se aquecer. Para que Lua não ficasse sozinha Tupã transformou todas as suas amigas em estrelas.

Desta forma o Sol (Deus Tupã), a Lua (Sua Amada) e as Estrelas (Amigas da Lua) subiram aos céus, deixando Mar para traz. Sobre a terra, ficou o mais triste dos homens, que acabava de perder o seu amor para o próprio Deus Tupã. Em um relance de pensamento o mesmo lembrou de suas palavras desafiando o Deus em outrora, o mesmo arrependeu-se de ter posto o amor de Lua em desafio.

Por dias, semanas, meses e talvez anos, Mar gritou aos céus a volta do seu amor presa ao firmamento, mas era tarde, a Lua tinha partido para nunca mais voltar. Em uma última tentativa de lucidez, o Mar pediu a Tupã que o perdoasse e devolvesse sua amada aos seus braços ou o tirasse daquela situação, daquela forma humana e chorou, chorou como ninguém jamais havia chorado na face da terra, se transformando em um mar de água salgada. Tupã ao ver a súplica o transformou no próprio pranto, dando origem aos oceanos.

Foi assim que entre o crepúsculo e o amanhecer, para todo o sempre estava criado os astros do céu, o Sol (o próprio Deus Tupã) com todo o seu esplendor, vestido de luz. Apaixonado pela Lua presa ao firmamento. A Lua com seu coração frio e vazio, presa ao firmamento por Tupã, longe do seu amor o Mar, só permitiu ser cortejada pelo Sol (seu dominador) de épocas em épocas, nós eclipses sololunar.

A Lua passou a ser reflexo da solidão. Entretanto todos sob a face da terra sabem que a Lua continua a atrair o Mar (chamá-lo), durante a ausência do sol. Certas noites a lua chega a provocar catástrofes na terra de tanto chamar o Mar para próximo de sí. Já o mar se transformou em um infinito de água salgada, oriunda do pranto da desilusão de seu amor desfeito por Tupã.

Dizem que os apaixonados em noite de lua cheia conseguem ver a Lua descer e tocar o mar (seu amado) que se enche todo por alguns instantes, sendo interrompida com a volta do Sol pela manhã. Foi assim que desde os tempos ancestrais, antes da existência do próprio firmamento, que o Sol (Deus Tupã) apaixonou-se pela jovem Lua. E mesmo vestido como o mais poderoso dos astros, cheio de luz e calor, não teve seu amor correspondido. Essa é a história do surgimento do firmamento, a história do Sol, da Lua e do Mar.”

Texto: Cássio Marques

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Existe uma diversidade de mitologias indígenas narrando a origem do firmamento. Na mitologia Tupi-guarani, Tupã é o deus dos trovões e cria Jaci (Lua), rainha da noite, para embelezar a escuridão. Tupã acaba sucumbindo aos encantos da própria criação e toma Jaci como sua esposa. Nesta lenda, Jaci é irmã da nossa conhecida sereia Iara. Nesta versão, Iara, além de sereia, é também a deusa protetora das águas, que vive nas profundezas dos lagos.

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Há versões nas quais Jaci é irmã e amante de Guaraci (Sol) e os dois se encontravam na alvorada com a ajuda de Rudá, o deus do amor. Em uma das versões que contam essa relação, Guaraci era um belo guerreiro com a pele dourada e olhos de fogo, enquanto Jaci era uma jovem tímida. Quando declaravam seu amor, Guaraci queimava de tanta paixão, colocando a Terra em perigo enquanto Jaci chorava de felicidade, causando inundações. O amor deles era perigoso, então decidiram que não mais se encontrariam. Jaci ficou inconsolável e chorou o Rio Amazonas.

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O envolvimento da Lua com mais uma entidade aquática também está na lenda de Vitória Régia. A jovem índia Naiá era devota de Jaci, e cresceu ouvindo histórias de como a Lua descia vinha buscar as mais belas jovens e a levava com ela para fazer companhia no céu. Naiá aguardava o dia em que seu Jaci a viria buscar e adormeceu na beira de um rio. Ao acordar, viu o reflexo da Lua no rio e acreditou que ela havia vindo se banhar no rio, permitindo que Naiá a tocasse. Naiá mergulhou nas águas fundas e acabou se afogando. Jaci reconheceu os esforços da jovens e decidiu transformá-la em uma estrela incomum: uma Vitória Régia, pois seu destino não estava nos céus, mas sim nas águas. Em noites de lua cheia, Naiá abre suas flores brancas para banhar-se com a luz de Jaci.

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Essa lenda indígena também está inclusa em no projeto Folclore BR, que busca recontar alguns folclores brasileiros provando que possuímos lendas muito ricas. O artista Anderson Awvas ilustrou essas figuras nacionais com filmes da Disney. E se a nossa Iara teve como base a história da Pequena Sereia, Vitória Régia teve como inspiração Moana. A história também ganha uma pequena mudança e Jaci revive a jovem Naia com a missão de descobrir quem foi a criatura que a ludibriou, levando ao seu afogamento. Para isso, ela contará com a ajuda de Jurubeba, uma fêmea de Mico-Leão-Dourado.

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Toda essas história da influência da lua nas águas tem um fundo de verdade. Muito se deve pelo comportamento das águas em época de lua cheia e existe uma explicação científica para isso. O fenômeno das marés é causado pela alteração da lua e do sol no nível das águas. Assim como a Terra atrai a Lua para realizar os seus movimentos, a Lua também atrai a Terra. Isso ocorre através da força gravitacional, que tem pouca influência nos continentes, mas tem muita influência sobre os oceanos, devido a fluidez das águas. Basicamente a Lua puxa as marés para si, causando protuberância nos oceanos. Por isso todas essas lendas giram em torno da lua “chamar” o mar.

O Sol, embora de menor influência, também ajuda ajuda nesse fenômeno. Desta maneira, quando a lua, a Terra e o sol estão alinhados, as marés ficam cheias. E quando a lua e o sol estão em 90 graus (lua crescente e minguante), as marés ficam baixas.

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No filme As Sereias (2003), o fenômeno das marés é mencionado e, nas noites de maré baixa, as irmãs se transformam mesmo que elas não se molhem. Outra obra televisiva envolvendo sereias que mostra a influência da lua é a mais famosa série de sereias: H2O Meninas Sereias. Os poderes de sereias foram adquiridos por Cleo, Drica e Nanda na piscina da lua das Ilhas Mako, em uma noite de lua cheia. O mesmo fenômeno ocorre na série spin-off, Mako Mermaids. Em ambas as séries, qualquer pessoa que esteja na piscina da lua no momento em que a lua cheia passa por cima, será transformado em sereia/tritão, pois é o momento em que a magia da piscina exerce poderes.

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Outros fenômenos astronômicos são mencionados na série:

  • Alinhamento planetário especial: Um raro alinhamento planetário, no qual a lua aumenta os poderes sereianos;
  • A Lua de 50 anos: A cada 50 anos ocorre um outro alinhamento planetário e, caso a sereia/tritão esteja na piscina da lua, ela perderá todos os poderes de sereia;
  • Eclipse Lunar: A sereia/tritão que estiver na piscina perde os poderes por 12h.

As sereias também são afetadas em noites de lua cheia se observarem a lua no céu. Nanda se transformou em uma sereia “selvagem”, Cleo adquiriu poderes de canto e Drica perdeu o controle do seu poder, sobrecarregando o calor ao seu redor. Além de ficarem mais sedutoras, normalmente elas também não lembram de nada, como se estivessem enfeitiçadas pelo poder da lua.

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Como amante da noite e da lua (e de Sandy e Junior), não posso deixar de adorar toda essa interação com o mar.

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Por Camila Piccini










28
abr
A lenda do boto cor-de-rosa

A gente encerrou os resumos da novela A Força do Querer, mas não significa que a novela deixará de ser pauta, não é mesmo?! Prova disso é que, hoje, trago a vocês a lenda do boto cor-de-rosa, uma figura citada na obra de Glória Perez no qual a personagem Ritinha, de Ísis Valverde, acredita ser filha.

Edinalva (Zezé Polessa), mãe de Ritinha, se envolvendo com o boto.

Edinalva (Zezé Polessa), mãe de Ritinha, se envolvendo com o boto.

O Folclore

Durante as festividades juninas nas noites de lua cheia, o boto se transforma em um rapaz muito atraente com as vestes brancas, irresistível e conquistador. No topo da cabeça, ele usa um chapéu para esconder o furo característico do cetáceo. Por esse motivo, sempre nas festas juninas, é comum pedir que se tire o chapéu para verificar se existe um furo na cabeça dos rapazes.

Essa é a versão mais popular da transformação. Em algumas versões, o boto não chega a sair do riacho, mantendo a forma de boto da cintura para baixo, como um tritão. O boto atrai a mulher mais bonita da festa e a leva para o fundo do rio, onde a engravida e depois retorna a forma de boto, deixando a moça com um filho. Por esse motivo, as crianças que possuem pai desconhecido nesta região são conhecidas como filhos do boto (assim como a Ritinha na novela).

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Faz parte da tradição dizer que, na forma humana, o boto tem sempre uma espada à cintura. Quando acaba o encanto, descobrimos que todos os acessórios que ele usa são habitantes das águas: a espada é um peixe poraquê, o chapéu é uma arraia, o sapato é um peixe cascudo ou bodó, e o cinto é um peixe arauaná.

Aparentemente, a lenda sobre o boto só surgiu no Brasil depois do século XVIII. Mas, na mitologia dos índios tupis, há um deus, o Uauiará, que se transforma em boto. Esse deus adora namorar belas mulheres.

Uauiará representa o variante masculino da Iara (Mãe-d’Água), que também é dona de um poder de encantamento e sedução (leia mais sobre a Iara aqui!). Uauiara simboliza o elemento água, dentro da qual vive. Ele transforma-se em homem e atinge o estado de manifestação dos poderes secretos, trazidos das profundezas do seu elemento.

Apesar disso tudo, o boto, ou Uauiara, também é conhecido por ser uma espécie de protetor das mulheres. Muitas pessoas dizem que, em embarcações que naufragaram, o boto aparece empurrando as mulheres para as margens do rio, a fim de evitar que elas se afoguem.

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Curiosidades

Não é a primeira vez que Glória Perez menciona a lenda do boto cor-de-rosa em suas obras. Na novela Amazônia, de 2007, Giovana Antonelli viveu Delzuite. A personagem era noiva de Viriato e se apaixonou por Tavinho, de quem engravidou. Para proteger sua honra, disse estar grávida do boto.

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Todos esses mitos fazem com que o boto seja conhecido pela sedução e a influência nos humanos. Dos olhos do boto faz-se um amuleto para dar sorte no amor; do órgão genital das fêmeas faz-se um perfume que as mulheres usam no corpo para atrair os homens; do órgão genital dos machos é feito perfume para os homens atraírem as mulheres. Por fim, das nadadeiras são feitos remédios, além de uma infinidade de outras aplicações. Em Belém do Pará existe um vasto acervo amoroso, onde estão em exposição todos os amuletos originários do Boto.

Diferenças Boto x Golfinho

Na escola é comum ensinar que o boto é de água doce, enquanto o golfinho é de água salgada. De acordo com o biólogo Marcos César Santos, coordenador do Projeto Atlantis, que luta pela preservação desses animais, essa diferença não existe. Os golfinhos são animais da ordem dos cetáceos e eles se subdividem em duas famílias:

O nome boto ganhou força na região norte do país para nomear o pequeno cetáceo encontrado na região amazônica. O boto-cor-de-rosa é o maior dos golfinhos fluviais, com os machos atingindo 2,55 metros.

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Espécie Ameaçada e Turismo

No Brasil, existem duas espécies de cetáceos e ambas estão ameaçadas de extinção. O boto cor-de-rosa (ou boto-vermelho) e o tucuxi, encontrados na Bacia Amazônica. A população dos cetáceos na região vem diminuindo, pois muitas vezes o boto fica preso em rede de pesca ou é atropelado por embarcações. Apesar de não ser uma carne usada no consumo humano, a pesca ilegal gera lucro através do uso da carne como isca na pesca da piracatinga, um bagre amazônico vendido erroneamente como pescadinha. Os pescadores extraem cerca de 15 toneladas de piracatinga por ano e quase 90% da isca que utilizam é carne de golfinho rosado. A pescadinha é muito consumida na Colômbia e no Japão, por esse motivo, o uso da carne de boto como isca vem sendo o maior problema que a espécie enfrenta.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) publicou o Plano de Ação Nacional (PAN) para conservação de mamíferos aquáticos. Destas ações, 15 são voltadas apenas para o boto cor-de-rosa. Dentre as ações, está incluso o controle do comércio estadual e internacional da piracatinga. As ações vêm sendo cumpridas, mesmo assim está previsto uma diminuição de 50% na população dos botos pelos próximos 30 anos.

Outro problema que o boto-cor-de-rosa enfrentava, além da pesca ilegal, era o turismo. O PAN conseguiu regulamentar a interação do boto com visitantes, como aconteceu no Parque Nacional de Anavilhanas. Esse tipo de turismo é incentivado pelo ICMBio, pois antes desta medida, os turistas alimentavam o boto sem nenhum tipo de controle. Os botos estavam ficando obesos e as pessoas se aproveitavam para montar e fotografar. Até mesmo bebidas alcoólicas eram disponibilizadas ao botos.

Hoje em dia há flutuantes com instrutores treinados. Os turistas podem nadar com os botos, há horários definidos e os instrutores alimentam o boto em uma quantidade reduzida, para que ainda seja necessário que o animal vá a caça. A área é demarcada com boias para impedir o avanço de embarcações, no entanto, os botos ficam livres. Os visitantes se dividem em grupos e assistem uma apresentação sobre as duas espécies locais: o boto cor-de-rosa e o tucuxi.

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Assim como ocorre no Projeto Tamar, o turismo sustentável ainda gera renda local aos flutuantes, hotéis e comércio, além da informatização da população local e dos pescadores. É também uma maneira de gerar renda e desincentivar a pesca ilegal.

Esperamos que toda essa atenção da novela ajude nos projetos de preservação da espécie!

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Por Camila Piccini