29
set
A lenda das Rusalkas
em: Cultura

Além de fã de carteirinha de folclores e mitologias, eu também gosto muito de histórias russas (muito porque Anastásia foi um dos desenhos da minha infância). Então imaginem a minha felicidade ao descobrir mais sobre as ninfas das águas da mitologia Eslava. Em russo moderno, Rusalka significa sereia, mas a denominação de demônios d’água acaba sendo mais adequada.

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Normalmente, nas mitologias, as entidades das águas estão associadas à fertilidade, e o folclorista russo Vladimir Propp afirma que o termo Rusalka era usado na mitologia pagã com esse significado. As Rusalkas vinham na primavera ajudar nas plantações.

Já o linguista germano-russo Max Vasmer diz que o termo se referia originalmente às danças de roda das jovens na festa de Pentecostes (festa cristã ao Espirito Santo), ou como definido pelos romanos, festa das rosas. No verão, as Rusalkas saíam das águas para dançar nas fazendas. Os russos falam que é possível saber onde as Rusalkas dançaram, pois a grama fica mais espessa e a plantação de trigo é mais abundante, confirmando a sua ligação com a fertilidade da terra.

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O mito das Rusalkas é um pouquinho mais “macabro”. Elas são espíritos de mulheres, principalmente as jovens, que se afogaram nos rios e lagos. São como se fossem mulheres mortas-vivas que foram amaldiçoadas por seus pais por conta de uma gravidez indesejada, perseguidas e assassinadas pelo maridos ou se mataram na beira do lago por causa de um casamento infeliz.

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As Rusalkas também podem ser crianças que não foram batizadas. Neste caso, essas crianças ficam vagando na beira do lago implorando para que sejam batizadas e possam descansar em paz, mas elas não são necessariamente inocentes e podem atacar os humanos que passarem distraídos por ali.

Assim como as sereias, as Rusalkas jovens e adultas atraem os homens com canções para hipnotizá-los e depois afoga-los no fundo do rio. No inverno, as Rusalkas vivem no fundo dos lagos embaixo do gelo, enquanto no verão elas saem das águas para dançarem nas clareiras e treparem em galhos de salgueiro. De acordo com o mito, para saírem das águas, precisam de um pente que as permite conjurar água e manter o corpo delas molhados. Diz a lenda que se você secar o cabelo de uma Rusalka, ela morrerá.

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Durante as primeiras semanas de junho, as Rusalkas podem ficar mais perigosas. Especialmente na quinta-feira conhecida como velykde, todos trabalham para não irritar esses espíritos, que podem mandar chuvas torrenciais e estragar toda a colheita. Até o final dos anos 30, no final das festividades russas Rusal’naia, era comum um ritual com banimento ou enterro das Rusalkas. Elas podem se libertar de serem esses espíritos, caso tenham a morte vingada.

A aparência das Rusalkas variam de acordo com o local. No norte acreditam que elas tenham aparência de mulheres nuas cadavéricas com cabelos verde musgo. Ficam a espera de viajantes descuidados e os aterrorizam e torturam antes de afogá-los. Os viajantes espalham folhas de losnas ou absinto em objetos que as Rusalkas podem querer roubar ou destruir para garantir a viagem segura perto de um lago.

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Já as Rusalkas do Sul são belas jovens com olhos sem pupila. Possuem a pele pálida e os cabelos longos. Atraem suas vítimas com um doce canto enquanto trançam o cabelo. Quando eles se aproximam, elas os afogam com uma risada fatal.

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Existe uma ópera de Antonín Dvořák, inspirada pela lenda e baseada no conto de fadas de Karel Jaromír Erben e Božena NěmcováA peça foi produzida pela primeira vez em Praga, em 1901. Em Viena, o espetáculo foi produzido em 1910. Já na Alemanha, ocorreu em 1935, enquanto a reprodução no Reino Unido aconteceu por volta de 1959. Nos Estados Unidos, a primeira reprodução foi no San Diego Opera, no ano de 1975. A história é muito parecida com a já nossa conhecida Pequena Sereia de Hans Christian Andersen. A Rusalka também se apaixona por um humano e troca a sua voz e a imortalidade na esperança de conquistar o amor do príncipe, que acaba se casando com outra.

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Rusalka pede conselhos para o Gnomo d’água, que também é seu pai, e a aconselha a ir encontrar a bruxa Ježibaba, apesar de adverti-la do perigo. Um conselheiro do príncipe suspeita de bruxaria e o afasta da Rusalka, fazendo o príncipe se aproximar da princesa estrangeira. Após recusar matar o príncipe, Rusalka se torna um espírito de morte das profundezas que só vai a superfície atrair humanos para seu destino fatal. O casamento do príncipe é infeliz e ele retorna ao lago para caçar. Ao sentir a presença de Rusalka, ele a chama para ganhar um beijo, mesmo sabendo que o levaria a morte. Rusalka agradece a alma do príncipe por permitir conhecer o amor humano e retorna às profundezas como um demônio d’água. Toda essa parte poética após a morte do príncipe é quebrada por uma frase vinda do Gnomo d’água: “Todos os sacrifícios são inúteis”.

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A canção mais famosa da ópera é “Song to the Moon”, que é uma música bem curtinha que a Rusalka canta antes de ir ao encontro de Ježibaba.

Ò lua bem alto no profundo céu,

A tua luz avista regiões distantes,

Viajas através do vasto,

Vasto mundo perscrutando os lares.

Ah, lua, queda-te por momentos,

Diz-me, ah, diz-me onde está o meu amado!

Diz-lhe, por favor, lua de prata no céu,

Que o abraço fortemente,

E que ele deve pelo menos momentaneamente

Lembrar-se de seus sonhos!

Ilumina esse local distante,

Diz-lhe, ah, diz-lhe quem o espera aqui!

Se ele comigo estiver a sonhar,

Que essa memória o faça acordar!

Ah, lua, não desapareças, não desapareças!

E falando em Rusalkas e A Pequena Sereia, relembre aqui o post onde contamos sobre dois filmes russos inspirados no conto de Hans Christian Andersen; um deles, inclusive, se chama Rusalka (Mermaid).

Por Camila Piccini

 










4
set
Campanha para o livro Mermaids Of Earth

O dinamarquês Philip Jepsen, inspirado pela história vinda de sua terra natal, A Pequena Sereia, resolveu criar um livro com imagens de estátuas de sereias ao redor do mundo, mas para lança-lo, ele conta com a ajuda de amantes de sereias de todo o globo.

mermaidsofearth_livro

Mermaids Of Earth reúne belíssimas fotos de 160 estátuas de sereia, juntamente com fatos e lendas. Todos que ajudarem com o projeto irão receber uma cópia até dezembro desse ano. Faltam 14 dias para a campanha terminar, então se você quiser um exemplar, é só acessar a página do livro na plataforma Kick Starter e colaborar com qualquer quantia a partir de 5 dólares.

Acapulco, Mexico

Acapulco, Mexico

Anfitrite em Grand Cayman Island

Anfitrite em Grand Cayman Island

Escocia (Foto por Astra Bryson)

Escocia (Foto por Astra Bryson)

Lituania (Foto por Gareth Parkes)

Lituania (Foto por Gareth Parkes)

Yemanja em Barra Velha (Foto por Elaine Schug)

Yemanja em Barra Velha (Foto por Elaine Schug)

O livro já conta, também, com um site oficial montado pelo autor, onde ele reúne várias outras informações sobre sereias, como uma lista de lugares onde podemos encontrar estátuas de sereias, loja de caudas e acessórios, poemas e arte.

Jeju Island, Coreia do Sul (Foto por Cheryl Chan)

Jeju Island, Coreia do Sul (Foto por Cheryl Chan)

Praia da Sereia, Vila Velha (Foto por Walter Rozindo Jr)

Praia da Sereia, Vila Velha (Foto por Walter Rozindo Jr)

Songkhla, Tailândia

Songkhla, Tailândia

Réplica da estátua A Pequena Sereia da Dinamarca em Brasília (Foto por Eric Royer Stoner)

Réplica da estátua A Pequena Sereia da Dinamarca em Brasília (Foto por Eric Royer Stoner)

Achei interessantíssima essa iniciativa que borbulha cultura, e tô torcendo para que o autor consiga lançar a obra – que, por sinal, já arrecadou mais de 10 mil dólares; restam, então, 15 mil para alcançar a meta. Vamos ajudar? 😀

Aproveitando, relembre os posts que já fizemos sobre lugares com monumentos de sereia:





Camila Gomes





10
jul
A Conchologia de Marina Alexandrovna

Para quem não sabe, a minha xará aqui do Sereismo e conterrânea Camila Gomes é muito fã da família Imperial Russa (eu achava que eu era, mas ela é muito mesmo) e, como uma sereia, ela logo deu um jeito de encontrar uma referência marítima no país que é sempre lembrado pela neve. É que Hans Christian Andersen, autor de A Pequena Sereia, e a imperatriz viúva Maria Feodorovna eram muito próximos quando ela ainda era conhecida como Dagmar da Dinamarca. Quando ela se mudou para a Rússia para se casar com o então czarevich Alexandre Alexandrovich, Andersen a escreveu:

Ontem, nas docas, enquanto estava a passar por mim, ela parou e segurou-me na mão. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Pobre criança! Oh, Senhor, sede gentil e piedoso com ela! Dizem que existe uma corte brilhante em São Petersburgo e que a família do czar é simpática, mas mesmo assim ela vai a caminho de um país desconhecido onde as pessoas são diferentes e a religião é diferente e onde não vai ter nenhum dos seus conhecidos a seu lado.

Então, quando eu me deparei com esse mosaico de sereia abaixo assinado por um nome russo, já logo lembrei dessa história que ela me contou e fui fuçar para saber se havia mais registros dessa relação.

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É uma obra da artista russa Marina Alexandrovna. Pesquisar sobre ela foi um pouco difícil, porque a maioria das coisas está em russo e também há uma atriz famosa com esse nome. O que descobri é que Marina Alexandrova mora em Moscou e é um membro da prestigiada Russian Artist Union. Ela faz seu trabalho com conchas há 10 anos. Apesar de seu forte ser mosaicos, ela trabalha com objetos de decoração, o que inspirou a escrever o livro Seashells and Coastal Decor.

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Marina já era artista profissional quando passava as férias em uma costa e se encantou pelas formas, cores e texturas das conchas marinhas. Ela prefere usar o seu material com a cor natural. As conchas usadas em seu trabalho são em grande parte adquiridas de comerciantes, mas ela também viaja em busca de novas cores e formas. Marina expõe seus mosaicos normalmente no Salão de Arte em Moscou e, como também trabalha com móveis, em feiras comerciais de móveis.

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Como artesã, Marina também afirma que prefere trabalhar com as conchas menores. É o que acaba enriquecendo o trabalho, deixando ele bem cheio detalhes. Em uma entrevista, ela disse que também trabalha em várias peças simultaneamente. Especialistas definem o trabalho dela como elegante, original e exclusivo, pois não há conchas iguais na natureza. Essa direção da arte também é chamada de Conchologia. Nos mosaicos, os seus trabalhos mais conhecidos são os flamingos, cisnes, patos e, claro, sereias.

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Por Camila Piccini