8
dez
Sereias Famosas – Dora Vivacqua

Hoje apresento a vocês o primeiro post escrito pela nossa mais nova colaboradora, a sereia Tatiane Bello <3 Ela nos contará a história de uma brasileira com alma de sereia, que teve um final trágico por proteger a natureza que tanto amava…

Primeiramente, eu gostaria de agradecer a grande oportunidade de expor a minha admiração pelas Sereias aqui neste pioneiro espaço chamado Sereismo. Encontrar semelhantes, e poder conversar de coração aberto sobre o que nos inspira, sabendo que tudo o que for dito a respeito do que amamos (no caso, as Sereias) será bem recebido, se torna um maravilhoso incentivo para continuar acreditando nos mais loucos sonhos que motivam a nossa alma. Gratidão Imensa! Espero que possamos mergulhar de mãos dadas neste Universo que a cada dia que passa, se mostra cada vez mais real do que fantasia. Então, vamos lá!

Luz del Fuego é o nome artístico de Dora Vivacqua, uma bela Sereia que morava em uma Ilha localizada na Baía de Guanabara no estado do Rio de Janeiro.

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Dora iniciou a sua carreira no circo em 1944, com o nome artístico de Luz Divina. Mais tarde mudou o seu “pseudônimo” para Luz del Fuego, tirando inspiração do nome de um batom argentino recém lançado no Brasil nesta época.

Bailarina, Luz dançava ritmos brasileiros vestida com pequenos trajes, que eram considerados bastante ousados para uma época onde ainda não se vestia roupas de banhos femininas de duas peças em público. Porém o grande diferencial de suas apresentações era a parceria de dança com um casal de cobras Jiboias.

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As suas apresentações atraiam grande público. Todos queriam ver a encantadora moça que dançava com cobras enrolada em seu corpo quase desnudo.

Em 1945 se apresentou na Argentina e no Panamá, em 1947 viajou para Nova York e se apresentou em casas noturnas durante três meses nos Estados Unidos. Em 1949 excursionou pelo Norte e Nordeste do Brasil. Porém, devido a sua ousadia artística chegou a ser impedida de se apresentar em diversas cidades do país, tendo como motivo alegado pelas autoridades locais, que a sua presença se encaixava em atentado ao pudor e ao desrespeito aos “bons costumes”.

Assistam um pouco de sua dança neste vídeo raro de 1949:

Luz del Fuego alcançou o auge da fama em 1950, se apresentando também como atriz em espetáculos do “Teatro de Revista” e atuando no cinema, sempre tendo as usas cobras como companheiros de cena.

Veja a sua aparição no filme americano “Curucu, Beast of the Amazon” de 1954:

Apesar de Dora Vivacqua ter conquistado a fama se apresentando de forma sensual, esta Sereia era bastante literata. Amava os livros e se preocupava em adquirir conhecimento. Ao conhecer obras de filósofos existencialistas e naturalistas como Friedrich Nietzsche e Jean Jacques Rousseu, tomou conhecimento da prática do Naturismo. Luz passou a defender a ideia de que interagir e respeitar o meio ambiente, os animais, a Natureza e a si mesmo, era a melhor forma de viver uma vida positiva e saudável.

Descobriu também o nudismo e tomou conhecimento de que já existia praticantes na Europa. Com isto, decidiu que iria trazer este movimento ousado e libertador para o Brasil. Em seus momentos de lazer, visitava as praias mais desertas do Rio de Janeiro, junto com amigas (e amigos também) e tomava banho de mar completamente nua. Assim, Luz del Fuego estava começando a formar o primeiro grupo de Nudistas do Brasil.

Com essas atitudes, chegou a ser surpreendida por policiais, detida e levada a delegacia por diversas vezes.

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Mas com todas as dificuldades, Dora não desistiu de seus sonhos e conseguiu um feito incrível. Em 1950 obteve a autorização da Marinha do Brasil para viver em uma ilha localizada na Baía de Guanabara. A ilha se chamava Itapuama de Dentro, mas logo foi rebatizada por “Ilha do Sol”.

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Na Ilha do Sol , Luz del Fuego fundou o primeiro Clube de Nudismo/Naturismo da America Latina, atraindo diversos visitantes, incluindo atores e atrizes do cinema de Hollywood. Em 1955 o clube foi oficializado e reconhecido pela Federação Internacional de Naturismo, tornando um de seus afiliados.

Apesar da nudez ser “obrigatória” na ilha, existia uma série de normas que deveriam ser cumpridas. Não eram permitidos atos libidinosos nem o consumo de bebidas alcoólicas. O ambiente deveria permanecer o mais familiar possível, pois o clube era destinado a interação de forma plena com a Natureza. Estes comportamentos seguem um padrão de conduta respeitado até os dias atuais nas colônias de Naturismo/Nudismo espalhados pelo Brasil e pelo mundo. O ato de ficar nu é uma forma de sentir a natureza de corpo inteiro , despidos de vaidades e preconceitos, adquirindo auto confiança, respeito a si mesmo e aos demais, praticando o desapego da vaidade e do egocentrismo, fortalecendo assim a saúde da alma. A descrição vai muito de encontro a essência das sereias, que são protetoras das águas e retratadas na maioria das vezes com os seios a mostra, demonstrando liberdade e emponderamento.

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Em 2013 o documentário “A Nativa Solitária” produzido em 1954 foi remasterizado. Nesta obra é possível ver essa encantadora Sereia falando sobre o seu estilo de vida e praticando o Nudismo em sua morada, a Ilha do sol. Para a nossa felicidade o vídeo está disponível no YouTube:

Devido a sua dedicação ao Clube Naturista, Luz del Fuego se apresentava cada vez menos nos palcos. Suas últimas aparições em espetáculos foram em 1964. Os anos foram passando, a idade avançando, a visita de sócios em seu clube diminuindo, porém o seu amor pela Natureza continuava o mesmo. A Ilha do Sol era a sua morada oficial. Acordava todos e dias com a chance de poder contemplar a vista de sua encantadora casa de Sereia. Uma ilha de formação rochosa cercada pela água da Baía de Guanabara que nesta época era límpida. Guanabara significa Rio-Mar, uma mistura de água do Mar com o desembocar de trinta e cinco rios distintos.

Do seu lar era possível ver o Sol nascer, os pássaros de diversas espécies entoar as suas divinas melodias, observar outras ilhas que formavam um pequeno arquipélago na região, cada qual com o seu charme e particularidade. Também era possível ver no horizonte as montanhas da região serrana do Rio de Janeiro que mais parecem uma ancestral muralha inertes, hora nebulosa e misteriosa, hora límpida imponente e inspiradora. Sem contar com a mudança das marés, do vento, das Luas. Ainda tinha o mais belo espetáculo que se repete todas as tardes a bilhões de anos: o magnífico por-do-sol.

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Porém, esta tranquilidade não durou para sempre. Luz amava e protegia a natureza e os animais da região, estava sempre atenta a tudo que acontecia ao seu redor. Eis que um dia percebeu que “pescadores” (ou piratas malvados) praticavam pesca criminosa atirando bombas nos cardumes, matando assim uma grande quantidade de peixes, agilizando o que poderia ser uma pesca demorada. Com isto, a bela Sereia decidiu denunciar os mal-feitores a polícia. Dora Luz não imaginava que com esta atitude estava praticamente assinando a sua sentença de morte.

Os pescadores, na verdade, eram de fato criminosos, um deles sendo até foragido da polícia. Movidos pela raiva, tramaram um plano escabroso: matar a bela Sereia. Em uma noite premeditada, partiram rumo a Ilha do Sol. O plano era esconder o barco de Luz del Fuego , chamar a artista e contar uma história dizendo que o seu veículo aquático havia desaparecido e eles estavam ali para ajuda-la a procurar. Luz, desconfiada, apareceu junto com o seu caseiro Edgar. Ela trouxe consigo uma arma em punho, mas os homens conseguiram convencer-la que estavam ali em missão de paz. Ledo engano!

Ao entrar no barco, Luz ficou de costas para um dos homens, e este desferiu golpes com um pedaço de madeira em sua cabeça, fazendo Luz cair desacordada no fundo do barco. Em seguida levaram o seu corpo para uma ilha vizinha e abriram o seu corpo na região do abdômen usando uma faca. Retornaram a Ilha do Sol e chamaram o caseiro, e cometeram a mesma barbaridade.

É muito difícil contar esta história… Como pode acontecer uma tragédia dessas com uma pessoa que amava a natureza e tinha como único desejo viver em paz na sua morada?

O assassinato aconteceu no dia 19 de julho de 1967. Luz del Fuego estava com cinquenta anos. Os criminosos afundaram o corpo das vítima no próprio barco da atriz e naufragaram a embarcação cerca de duzentos metros da Ilha do Sol. Os corpos só foram encontrados no dia 03 de agosto de 1967.

Passados quase cinquenta anos desta tragédia, a Ilha do Sol e a casa da Sereia Nua permanecem tristes e silenciosos no horizonte.

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No ano passado eu fiz um rápido vídeo mostrando como a Ilha do Sol se encontra nos dias atuais, confira:

Eu moro bem próximo a Baia de Guanabara, e conheci esta maravilhosa história quando tive uma grande chance de visitar a Ilha do Sol pela primeira vez em 2003. Eu conto sobre este mágico momento em uma postagem que fiz em 2013 neste link.

Em 2017 completa 100 anos do nascimento de Dora. Em homenagem, criei um perfil no Instagram para compartilhar o seu legado histórico.

Hoje em dia é possível encontrar diversas obras que contam a trajetória de Luz del Fuego. Os Naturistas e Nudistas a consideram Mãe destas práticas no Brasil, tanto que o dia 21 de fevereiro, seu aniversário, é comemorado dia do Naturista.

Em vida, Luz del Fuego escreveu dois Livros: O Trágico Blackout, em 1947, e A Verdade Nua, em 1948. Ambos livros raríssimos de ser encontrados.

Em 1975, a cantora Rita Lee lançou o álbum Fruto Proibido, no qual contém a música Luz del Fuego, com a letra inspirada na vida da artista revolucionária. Mais tarde a canção também foi interpretada por Cássia Eller.

Em 1982, foi lançado o filme “Luz del Fuego” de David Neves, tendo como papel principal a atriz Lucélia Santos. Com este ousado trabalho, Lucélia ganhou o prêmio de Melhor Atriz. Veja o seu depoimento sobre a sua atuação no longa:

O filme traz um ponto de vista um pouco ousado da artista e não conta exatamente a história de acordo com a veracidade dos fatos ocorridos na vida de Luz del Fuego. A classificação indicativa é para maiores de 18 anos.

Em 1991 foi lançado o livro A Bailarina do Povo, uma biografia escrita por Cristina Agostinho, Branca de Paula e Maria do Carmo Brandão, publicado pela editora Best Seller. É uma obra completa, onde é possível encontrar informações sobre toda a trajetória de Dora.

Espero que tenham gostado da história desta Sereia corajosa e sonhadora que revolucionou a sua época pondo em pratica os seus sonhos mais loucos!!!

Até mais :)

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25
nov
Resenha de livro – Úrsula, A Historia da Bruxa da Pequena Sereia por Serena Valentino
em: Cultura

Serena Valentino é uma escritora norte-americana que produz uma série de livros para a Disney na qual mostra a história dos vilões das animações clássicas dos estúdios. Três títulos já foram lançados, contando sobre a Rainha Má da Branca de Neve e sobre a Fera, de “A Bela e a Fera”. O último é sobre a Úrsula, a bruxa do mar – e a que mais nos interessa, hehe!

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As narrativas dos livros da série acontecem praticamente no mesmo tempo-espaço, mas não são continuações entre si. Por levar o logo da Disney, poderíamos afirmar que são oficiais, se não fosse por um furo ou outro que observei no livro da Úrsula. Por exemplo, [spoiler alert] em certo capítulo a bruxa do mar diz que Ariel está apaixonada pelo príncipe, porém a cena do filme que é descrita posteriormente é a do início do filme “A Pequena Sereia”, onde a sereia ainda nem conheceu Eric.

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Para falar a verdade, esse não é o único ponto negativo. Existem ao menos dois capítulos inteiros que a autora somente transcreve cenas exatas as do filme, e acredito que muita gente não ache interessante ler algo que já sabe. Além disso, a narrativa é bem confusa, mas eu posso ter achado isso pelo fato de não ter lido os outros dois livros da série.

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A ideia inicial da produção do filme “A Pequena Sereia” era mostrar Úrsula e Tritão como irmãos e isso é confirmado no livro de Serena Valentino. Porém, muitas perguntas continuaram sendo deixadas no ar, como por exemplo: por que a forma natural da Úrsula é de polvo? Por que ela foi banida do reino de Tritão? Sim, a pergunta mais óbvia de todas não foi respondida, a autora somente deixa implícito que eles brigavam muito.

Se você é fã da Disney, talvez valha a pena ler todos os livros para chegar a uma conclusão melhor. Eles são curtinhos, li em um dia! É provável que mais histórias de vilões sejam lançadas futuramente, como a da madrasta da Cinderela e a de Malévola. Agora, se você não é fã da Disney, falando da obra individualmente, é um livro que não recomendo. 

Onde comprar?





Camila Gomes





17
nov
A Pequena Sereia de Hans Christian Andersen

Hoje a animação clássica da Disney “A Pequena Sereia” completa 27 anos e estamos aqui para enaltecer o que originou tudo isso: o conto de mesmo título do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.

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Andersen nasceu no dia 2 de abril de 1805 na cidade de Odense, na Dinamarca. Apesar de ter vindo de uma família humilde, seu pai nunca deixou de valorizar seus estudos e criatividade. Foi na adolescência que ele começou a se focar na literatura e chegou a escrever diversos romances adultos, mas foram os contos de fadas que o levaram a fama. Entre os títulos estão “O Patinho Feio”, “A Rainha da Neve” (que inspirou Frozen da Disney), “A Polegarzinha” e “A Princesa e a Ervilha”. Segundo estudiosos, Andersen buscava sempre passar padrões de comportamento que deveriam ser adotados pela nova sociedade que se organizava, inclusive apontando os confrontos entre “poderosos” e “desprotegidos”, “fortes” e “fracos”, “exploradores” e “explorados”. Ele também pretendia demonstrar a ideia de que todos os homens deveriam ter direitos iguais. O poeta morreu aos 70 anos e seu corpo se encontra enterrado em Copenhague, capital de seu país.

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Em homenagem a seu nascimento e importância literária, o dia 2 de abril foi instituído como o Dia Internacional do Livro Infantil. Além disso, o mais importante prêmio literário da literatura infanto-juvenil, considerado o pequeno Nobel da literatura, leva o seu nome: Prêmio Hans Christian Andersen, concedido a cada dois anos pela International Board on Books for Young People, filiada à UNESCO.

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Aos 32 anos Andersen publicou “A Pequena Sereia”, em 7 de abril de 1837. Alguns acreditam que a história da sereia é autobiográfica, e mostra uma desilusão amorosa que o autor sofreu em vida. A teoria esbarra na contradição de que Andersen seria homossexual. O fato da sereia ter uma paixão proibida por um humano, tendo que se adequar as condições da sociedade humana, seria uma analogia ao amor de Andersen por outro homem. Isso ganha ainda mais sentido ao vermos o quanto a figura da sereia é significativa à pessoas trans, que se identificam com elas por serem trans-espécies.

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Ilustração por Darcy May

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Ilustração por Christian Birmingham

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Ilustração por John Patience

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Ilustração por Edmund Dulac

No DVD Diamante de “A Pequena Sereia” da Disney há um bônus em que a produção do filme conta sobre a relação de Andersen com um de seus contos mais famosos e um pouco sobre a sua vida. É de emocionar (eu choro real)! Assista abaixo:

Em Copenhague existe uma estátua de bronze da Pequena Sereia, em homenagem ao escritor. O monumento é um dos mais importantes da cidade, mas infelizmente já sofreu muitos atos de vandalismo, tendo que ser refeita diversas vezes. Há quem diga que ela tenha relação com a sereia de Varsóvia, na qual já contamos nesse post aqui. No filme da Disney, há uma cena em que Ariel aparece exatamente como a escultura:

Comparação: a Pequena Sereia da Disney e a estatua da mesma que fica na Dinamarca, país de origem do autor do conto

Para quem nunca leu o conto original, trago uma versão um tanto resumida, retirada do meu livro de contos de Hans Christian Andersen (a foto do mesmo está abaixo do terceiro parágrafo deste post, junto da minha réplica da estátua da Pequena Sereia):

Lá bem no fundo do oceano há um extraordinário palácio. Suas paredes são feitas de coral, o teto é decorado com lindas conchas e peixes brilhantes entram e saem pelas janelas abertas. O palácio pertenceu ao rei do mar, que viveu lá com as suas seis filhas. As princesas eram todas muito bonitas, com cabelos longos e ondulados e caudas cintilantes. Mas a mais jovem era a mais bonita de todas. Seus olhos eram mais azuis do que o próprio oceano e sua pele era mais branca do que pérolas. A voz da jovem princesa era a que mais se destacava das outras. Quando ela cantava, era como se mil sinos de prata ecoassem pelo oceano.

As princesas tinham uma vida feliz e livre. As criaturas do mar eram seus amigos. Durante todo o dia, eles brincavam de esconde-esconde entre os corais. Elas pegavam carona em cascos de tartarugas, dançavam com polvos e riam com os peixes-palhaços.

O que elas mais gostavam, acima de tudo, era ouvir histórias sobre o mundo além das ondas. As princesas ouviam, fascinadas, a avó contar histórias de sereias que não tinham caudas, peixes voadores que podiam cantar e estrelas-do-mar que brilhavam no céu noturno. As netas nunca tinham visto humanos ou estrelas, então era assim que a avó descrevia para que elas pudessem entender.

As princesas mal podiam esperar para conhecer tudo isso. “Quando vocês completarem 15 anos, vocês verão”, a avó prometeu. “Isso parece uma eternidade”, suspirou a mais jovem, que era a que mais iria esperar. Enquanto suas irmãs brincavam, de vez em quando ela passeava pelo jardim do palácio, sonhando com o mundo acima. Ela cheirava as flores e tentava imaginar qual era o cheiro das flores terrestres. As outras princesas fizeram canteiros de flores no formato de criaturas marinhas, mas a sua era redonda como o sol. No centro havia uma estátua de mármore de um rapaz humano que ela encontrou no solo oceânico. Ela costumava sentar ali e ficar olhando fixamente para ele por horas.

Eventualmente o aniversário de 15 anos da princesa mais velha chegou. “Não se preocupem”, ela disse às suas irmãs enquanto se despedia. “Eu voltarei logo e contarei tudo a vocês”. As princesas esperaram impacientemente pelo seu retorno. Em certo momento, elas ouviram um barulho lá fora, mas era apenas uma tartaruga. Quando finalmente ela chegou, todas se reuniram a sua volta. “O que você viu?”, elas perguntaram aflitas. “Eu me deitei em uma praia sob a lua, e vi luzes piscando na cidade”, ela disse sonhadoramente. “Os sinos da igreja soaram atravessando a baía, muito mais claro e vivo do que o som abafado do oceano”. A pequena sereia fechou os olhos e tentou imaginar o soar dos sinos. Ela desejou ouvi-los por si mesma.

Passou um ano até que a segunda sereia mais velha visitasse o mundo acima. Ela emergiu quando o sol estava se pondo, a tempo de presenciar um bando de cisnes voando pelo céu alaranjado. “Eu nunca vi criaturas tão majestosas”, ela contou às suas irmãs. “Elas eram tão fortes e ao mesmo tempo tão graciosas”.

A terceira irmã fazia aniversário no inverno, e quando ela chegou a superfície ela teve que romper o gelo. Icebergs se erguiam por todos os lados, brilhando como diamantes quando a luz do sol batia neles.

A quarta irmã era a mais corajosa, então quando sua vez chegou, ela decidiu explorar mais o interior. Ela nadou até um rio entre montanhas verdes até alcançar um lindo lago onde crianças estavam se divertindo. Num primeiro momento, ela achou que as crianças fossem sereias também. Mas então ela percebeu que elas não tinham caudas e se deu conta de que eram seres humanos. Ela nadou até eles, mas uma enorme e cabeluda criatura correu até ela, fazendo um barulho terrível. Era apenas um cachorro, mas a princesa nunca tinha visto ou ouvido um antes, então ela se virou e fugiu. Suas irmãs ouviram seu relato com temor. O mundo acima do oceano parecia ser um lugar maravilhoso e aterrorizante.

Depois de ouvirem sobre essa aventura, a quinta irmã não quis se prolongar. Ela saiu do oceano aberto, onde viu baleias espirrando água e golfinhos saltando no ar. “Tenho certeza de que isso é tão lindo quanto a terra, e muito mais seguro”, ela declarou quando retornou. Suas irmãs assentiram. Agora que elas viram o mundo por si mesmas, elas estavam satisfeitas em ficar em seu lar no reino marítimo. Mas a princesa mais jovem ainda estava desesperada para explorar o mundo acima. Toda noite, ela encarava a água azul escura pela janela e tentava imaginar a lua brilhando no céu estrelado.

Enfim, a vez da pequena sereia chegou. Ela se levantou através da água como uma bolha, cada vez mais alto. Estourando na superfície, ela respirou fundo. O ar fresco e salgado fez a sua língua formigar. Enquanto olhava ao seu redor, ela engasgou. Bem acima dela havia um enorme navio com mastros altos. Cordas de lanternas balançavam e mergulhavam na água, enquanto uma música animada ecoava pela brisa.

A pequena sereia se debateu ansiosa pelas ondas, tentando ver o que estava acontecendo. Em cima do convés, havia pessoas dançando. Damas em vestidos de seda de gala rodopiavam, acompanhadas de cavalheiros com chapéus e coletes. Então uma trompeta soou e um atraente jovem humano apareceu. Todo mundo se virou para ele. Os homens se curvaram e as mulheres fizeram reverência. O jovem rapaz era um príncipe e estava fazendo aniversário.

A Pequena Sereia estava tão encantada que não notou quando o tempo começou a mudar. Ondas foram se formando e gaivotas estavam voando ao redor dos mastros, dando um aviso. Mas ninguém ouviu. Então o céu escureceu e grandes gotas de chuva começaram a cair. O vento atingiu o navio e os tripulantes correram para se abrigar, mas o príncipe ficou para ajudar. Marinheiros correram para lá e para cá, desfraldando as velas do navio, que estavam batendo no vento como pássaros assustados.

O mar cresceu selvagem e bravo. Ondas bateram no convés e atirou o navio lado a lado. Raios e trovões rasgaram o céu. Com uma enorme rachadura, o mastro se dividiu em dois e caiu no convés. O navio tombou em um gemido fúnebre.

A Pequena Sereia viu o príncipe mergulhar no mar. Por um momento, o coração dela saltou pensando que ele poderia estar com ela. Mas então ela lembrou que sua avó uma vez disse que humanos não conseguiam respirar debaixo d’água. Rapidamente, ela nadou até o príncipe entre os cascos do navio, mas antes que ela pudesse alcançá-lo, ele afundou no meio das ondas. Batendo sua cauda, ela mergulhou até ele. Ela o agarrou bem forte e nadou até a superfície.

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Os olhos do príncipe estavam fechados mas ele ainda respirava. De perto, ele parecia com a estátua de seu jardim, e a Pequena Sereia se apaixonou por ele. Ela o segurou em seus braços por uma noite inteira. Cuidadosamente, ela manteve sua cabeça acima da água e deixou que as ondas os carregassem.

Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir, ela estava exausta. Mas pelo menos o mar estava calmo. As ondas os levaram para uma enseada alinhada a palmeiras. A Pequena Sereia deitou o príncipe na areia quente. Puxando seu cabelo molhado dos olhos, ela o beijou suavemente na testa.

Logo em seguida, um barulho a perturbou. Voltando ao mar, ela se escondeu atrás de uma pedra. Uma jovem garota humana apareceu e correu até o príncipe. Ele abriu os olhos e sorriu para ela agradecendo, sem saber que uma sereia tinha sido sua verdadeira salvadora. A garota sorriu de volta para ele e apertou sua mão.

A Pequena Sereia não suportou assistir aquela cena. Com o olhar triste, ela se virou e mergulhou nas ondas.

Suas irmãs estavam esperando por ela no palácio, ansiosas para saber o que ela tinha visto, mas ela se negou a contar qualquer coisa.

As semanas foram se passando e ela se tornando cada vez mais melancólica. Seus cabelos estavam emaranhados e seu olhar havia perdido o brilho. Todos os dias, ela sentava perto da estátua no jardim e pensava no príncipe, enquanto o jardim que ela cuidava com tanto amor se tornava um sertão.

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Um dia, sua avó se aproximou. “O que há de errado, minha querida?”, ela perguntou gentilmente. “Você estava tão animada para ver o mundo e desde que voltou tem estado desesperadamente triste”. A Pequena Sereia suspirou e contou à ela sobre o príncipe. “Existe alguma maneira que eu possa viver na terra e estar perto dele?”, ela perguntou. “Não é impossível…”, sua avó começou. Então ela parou e balançou a cabeça. “Você deve esquecer isso”, ela disse. “As coisas são diferentes aqui. Sua amável cauda pode parecer feia para ele. Os humanos acham que você deve ter pernas para ser bonita. Você não seria feliz”.

Mas a Pequena Sereia não conseguia esquecer. Ela já havia escutado sua avó contar sobre uma bruxa do mar, e então ela decidiu buscar ajuda. A Pequena Sereia tinha certeza que a bruxa do mar tinha muito conhecimento, afinal ela vivia em um manguezal que ficava entre a terra e o mar.

Era um longo caminho pela frente e a Pequena Sereia não sabia ao certo como chegar lá, então ela pediu que um peixe-piloto a guiasse. No caminho, ela passou pelo navio naufragado do príncipe, e a Pequena Sereia avistou o esqueleto do capitão. Seus dedos ainda estavam no leme. Ela estremeceu e nadou mais rápido.

O peixe a levou até um redemoinho que ameaçou sugá-los para o fundo onde estranhas chaminés cuspiam fumaças de água negra, e onde peixes tinham luzes para que pudessem ver um ao outro no escuro.

Enfim eles chegaram no manguezal da bruxa do mar. O peixe-piloto esperou na beira, deixando a Pequena Sereia entrar sozinha. Enquanto passou pelo labirinto de raízes emaranhadas, olhos arregalados apareceram no meio da lama e uma estranha medusa flutuou. Uma enguia deslizou e se enrolou nela. “Venha por aqui”, ela chiou. A enguia a guiou para dentro da caverna da bruxa. Respirando fundo, a Pequena Sereia entrou.

“Eu sei o que você quer”, disse a bruxa do mar. Seus olhos verdes pareciam encarar diretamente o coração da Pequena Sereia. “Eu posso preparar uma poção que vai te permitir andar em terra, mas vai doer mais do que você imagina”.

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“Eu não tenho medo”, disse a Pequena Sereia, apesar de sua voz estar estremecida. “Você deveria estar”, disse a bruxa. “Uma vez que seu pé tocar a terra, não há volta. Você nunca mais poderá retornar ao reino de seu pai viva. Se o príncipe se apaixonar por você, você ganhará uma alma humana e viver feliz em terra. Mas se ele escolher casar com outra, você morrerá antes do sol se pôr no dia do casamento dele”.

A Pequena Sereia ficou pálida, mas ela pensou em seu príncipe e assentiu. “Eu farei isso”, ela disse. “Muito bem”, disse a bruxa do mar. Ela jogou uma mão cheia de dentes de tubarão em seu caldeirão, adicionou gotas de sangue azul de uma lula e borrifou o ar de um baiacu. Então, ela mexeu todos os ingredientes, entoando um cântico. Quando a poção ficou pronta, ela a colocou em uma garrafa.

A Pequena Sereia se aproximou para pegar, mas a bruxa se afastou. “Você ainda não me pagou”, ela rosnou. “Eu não tenho dinheiro”, disse a princesa. “Então me dê o que você tem de maior valor. Sua voz”.

“Mas como eu irei falar com o príncipe?”, gaguejou a Pequena Sereia. “Isso não é problema meu”, a bruxa rebateu. “Você quer a poção ou não?”. A Pequena Sereia hesitou. “Sim”, ela sussurrou. Foi a última palavra que ela disse, antes da bruxa cortar a sua língua.

Ela pegou a garrafa e correu para o peixe-piloto. Em silêncio, eles nadaram até a superfície e até a costa, onde o castelo do príncipe empoleirava-se no alto da montanha. A Pequena Sereia escalou as pedras e contemplou o castelo. Então ela olhou tristemente para o mar. Ela soprou um beijo para a família e tomou a poção.

Ela sentiu uma dor lancinante, como se uma espada estivesse golpeando sua cauda, e quando ela olhou para baixo a cauda não estava mais lá. No lugar estava um par de pernas frágeis, que acabavam com dois pés bonitos e brancos. Cuidadosamente, a Pequena Sereia tentou levantar, mas a dor era agonizante. Suas pernas falharam e ela caiu no chão. “Deixe-me ajudá-la”, disse uma voz confortante. Ela olhou para cima e se deparou com o príncipe a oferecendo a mão. Agradecida, ela pegou a mão dele, e juntos escalaram a escada de pedras que levava ao castelo. Cada passo que ela dava era como se estivesse andando sobre facas, mas a Pequena Sereia suportou firmemente.

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“Da onde você é?”, o príncipe perguntou, curioso, já que ela estava vestida somente com trapos de algas. Ela tentou responder usando gestos e o olhar, mas o príncipe não entendeu. Depois de entrar no castelo e descansar, os servos do príncipe a vestiram com um robe azul de seda bordado. “Você é linda”, disse o príncipe quando viu a Pequena Sereia, e ela corou.

Os dois logo se tornaram amigos. O príncipe a achou uma pessoa fácil de conversar, e alguém que ele poderia confiar seus segredos. Claro, ela nunca disse uma palavra de volta, mas seus olhos azuis eram cheios de compreensão. Um dia, quando estavam caminhando pelo jardim do castelo, o príncipe parecia distraído. “Meu pai quer que eu me case”, ele explicou. “Ele escolheu uma noiva e nosso casamento é amanhã”. Uma lágrima correu pelas bochechas da Pequena Sereia. O príncipe a enxugou. “Não chore por mim com esses seus olhos sábios”, ele disse. “Eu tenho certeza que não serei forçado a casar com alguém que não amo”. Ele mal fazia ideia de que a Pequena Sereia, na verdade, estava chorando pela própria vida.

Naquela noite, debaixo da lua cheia fúnebre, o príncipe contou histórias sobre naufrágios e sereias, e a Pequena Sereia ouvia tristemente. De repente, ele se virou para ela. Ele levantou o rosto dela em direção ao seu e a encarou afetuosamente. “Eu não sei porque, mas sempre que eu olho para você, me lembro de alguém”, ele disse. “Eu fui jogado do mar para a areia e ela me salvou. Só a vi uma vez, mas ela roubou meu coração”. A Pequena Sereia chorou silenciosamente por dentro, afinal ela não conseguia contar a ele a verdade, que havia sido ela a sua salvadora.

De manhã, as preparações para o casamento do príncipe começaram. Bandeiras foram expostas nos parapeitos, candelabros foram limpados até brilharem e o chão de mármore foi polido até reluzir. Enquanto na cozinha um grande banquete estava sendo preparado. Pela tarde, o castelo estava pronto para o casamento real.

Quando os convidados começaram a chegar, a banda iniciou uma melodia. “Vamos dançar”, disse o príncipe, e levou a Pequena Sereia pelos braços. Enquanto eles dançavam pelo salão, todos ficaram encantados pelos movimentos graciosos dela. A Pequena Sereia dançou como se sua vida dependesse daquilo. Seus pés frágeis estavam cortados em tiras, mas apesar da dor, ela desejava que aquela dança durasse para sempre.

De repente, a música parou. Um burburinho se entoou no salão e a noiva do príncipe chegou no salão. O príncipe encarou com espanto. “É ela”, ele gaguejou, reconhecendo que sua noiva era a garota que o encontrou na praia. A partir daquele momento, o príncipe não tinha olhos para mais ninguém. Ele não percebeu quando a Pequena Sereia saiu rastejando ou a trilha de pegadas que dava ao mar.

Na costa, a Pequena Sereia estava molhando seus pés. Estava pinicando terrivelmente, mas ela sentiu algo estranhamente reconfortante. Ela pegou uma concha e colocou próximo ao ouvido. Por um momento, ela achou ter ouvido suas irmãs a chamarem. Assim que o sol começou a se por, os sinos da igreja iniciaram a celebração do casamento do príncipe. O som era ainda mais alto do que a Pequena Sereia tinha imaginado. De repente, ela viu suas irmãs emergindo. Seus cabelos estavam curtos e não ondulavam ao vento. Elas explicaram que deram as madeixas a bruxa em troca de uma solução para o destino cruel da Pequena Sereia. “A bruxa nos deu um punhal. Antes do nascer do sol, você deve cravá-lo no coração do príncipe. Só assim você poderá voltar a viver conosco”. A Pequena Sereia não aceitou o trato e, por provar seu amor puro e verdadeiro, ao invés de dissolver em espuma do mar, ela virou uma filha do ar.

Como podem ver, a narrativa não descreve a aparência da protagonista e nem revela seu nome. Por isso, há muitas releituras da personagem e a mais famosa, obviamente, é a da Disney, sendo ruiva e chamada de Ariel. Ela foi a ponte para eu conhecer a extraordinária trajetória de seu verdadeiro criador. O valor sentimental que a Pequena Sereia tem para mim é enorme e eu espero que, com esse post, eu tenha feito vocês se apaixonarem ainda mais também <3

Arte conceitual da Ariel da Disney, antes dos desenhistas chegarem ao resultado que conhecemos

Arte conceitual da Ariel da Disney, antes dos desenhistas chegarem ao resultado que conhecemos

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Camila Gomes