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nov
Kianda, a sereia angolana

Desde 2003 foi instituído no Brasil que o dia 20 de novembro seria celebrado o Dia da Consciência Negra. No calendário escolar, o mês de novembro inteiro é voltado para atividades que celebram a cultura negra. Como eu  sempre gosto de falar um pouco de mitologia, resolvi trazer um pouco das sereias cultuadas em algum país africano: a Kianda, a sereia Angolana.

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Os angolanos acreditam muito em sereias. Para eles, em todo rio, lago, poço ou até reservatório d’água possui uma Kianda. Desta forma, a Kianda seria também a própria encarnação do meio aquático. No entanto, é no mar que se encontra a rainha das Kiandas, a mais poderosa delas a qual o povo leva suas oferendas, a Kianda do mar.

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A lenda que envolve a Kianda narra que ela vivia nos rochedos do Forte de São Miguel, perto de Luanda. A Kianda que vivia na praia estava sozinha quando encontrou um homem que estava triste e desiludido com a vida. Com pena, a sereia angolana concedeu ao pescador o seu tesouro secreto e o homem enriqueceu da noite pro dia. No entanto, ele se tornou ganancioso, mesquinho e avarento, além de só usar o dinheiro para o próprio interesse. Como o acompanhava de longe, a Kianda ficou entristecida com a situação e resolveu dar uma lição no homem, deixando-o com menos ainda do que ele tinha antes de encontrá-la. Ela também prometeu jamais ajudar outro homem, e usava seu canto para atrair os que se aproximavam de suas águas sagradas e aprisioná-los no fundo do mar. A Kianda não se alegra com a ganância dos homens e há angolanos que garantem que ela já aprisionou vilarejos inteiros em suas águas.

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Forte de São Miguel

Por essa lenda, os pescadores acreditam que a sereia pode trazer tanto o bem quanto o mal, podendo representar perigo e medo, mas também inspirar o amor. A Kianda também fomenta o imaginário popular nas artes locais. Uma das mais conhecidas é a pintura de Adamario Costa Lima “A felicidade de Kianda” e a estátua de uma sereia no porto de Lobito.

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A Felicidade de Kianda

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Porto de Lobito

Em 1997, um escritor angolano também venceu o prêmio Camões com uma narrativa sobre Kiandas. No romance de Pepetela, os prédios de uma cidade estão desmoronando, deixando a cidade perplexa, pois ninguém se machucava nesses desmoronamentos. Os cientistas, então, descobrem que a água dos cimentos foi retirada, rompendo a estrutura dos prédios. Apesar de saber o motivo, ninguém entende como isso foi acontecer. Então, uma jovem chamada Cassandra escuta vozes vinda do poço e a Kianda se revela como a responsável pela destruição dos prédios, e explica que fez isso porque a cidade foi construída em cima da lagoa que ela habitava e ela deseja recuperar seu bem. O livro se chama “O desejo de Kianda”.

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Por Camila Piccini