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abr
A lenda do boto cor-de-rosa

A gente encerrou os resumos da novela A Força do Querer, mas não significa que a novela deixará de ser pauta, não é mesmo?! Prova disso é que, hoje, trago a vocês a lenda do boto cor-de-rosa, uma figura citada na obra de Glória Perez no qual a personagem Ritinha, de Ísis Valverde, acredita ser filha.

Edinalva (Zezé Polessa), mãe de Ritinha, se envolvendo com o boto.

Edinalva (Zezé Polessa), mãe de Ritinha, se envolvendo com o boto.

O Folclore

Durante as festividades juninas nas noites de lua cheia, o boto se transforma em um rapaz muito atraente com as vestes brancas, irresistível e conquistador. No topo da cabeça, ele usa um chapéu para esconder o furo característico do cetáceo. Por esse motivo, sempre nas festas juninas, é comum pedir que se tire o chapéu para verificar se existe um furo na cabeça dos rapazes.

Essa é a versão mais popular da transformação. Em algumas versões, o boto não chega a sair do riacho, mantendo a forma de boto da cintura para baixo, como um tritão. O boto atrai a mulher mais bonita da festa e a leva para o fundo do rio, onde a engravida e depois retorna a forma de boto, deixando a moça com um filho. Por esse motivo, as crianças que possuem pai desconhecido nesta região são conhecidas como filhos do boto (assim como a Ritinha na novela).

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Faz parte da tradição dizer que, na forma humana, o boto tem sempre uma espada à cintura. Quando acaba o encanto, descobrimos que todos os acessórios que ele usa são habitantes das águas: a espada é um peixe poraquê, o chapéu é uma arraia, o sapato é um peixe cascudo ou bodó, e o cinto é um peixe arauaná.

Aparentemente, a lenda sobre o boto só surgiu no Brasil depois do século XVIII. Mas, na mitologia dos índios tupis, há um deus, o Uauiará, que se transforma em boto. Esse deus adora namorar belas mulheres.

Uauiará representa o variante masculino da Iara (Mãe-d’Água), que também é dona de um poder de encantamento e sedução (leia mais sobre a Iara aqui!). Uauiara simboliza o elemento água, dentro da qual vive. Ele transforma-se em homem e atinge o estado de manifestação dos poderes secretos, trazidos das profundezas do seu elemento.

Apesar disso tudo, o boto, ou Uauiara, também é conhecido por ser uma espécie de protetor das mulheres. Muitas pessoas dizem que, em embarcações que naufragaram, o boto aparece empurrando as mulheres para as margens do rio, a fim de evitar que elas se afoguem.

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Curiosidades

Não é a primeira vez que Glória Perez menciona a lenda do boto cor-de-rosa em suas obras. Na novela Amazônia, de 2007, Giovana Antonelli viveu Delzuite. A personagem era noiva de Viriato e se apaixonou por Tavinho, de quem engravidou. Para proteger sua honra, disse estar grávida do boto.

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Todos esses mitos fazem com que o boto seja conhecido pela sedução e a influência nos humanos. Dos olhos do boto faz-se um amuleto para dar sorte no amor; do órgão genital das fêmeas faz-se um perfume que as mulheres usam no corpo para atrair os homens; do órgão genital dos machos é feito perfume para os homens atraírem as mulheres. Por fim, das nadadeiras são feitos remédios, além de uma infinidade de outras aplicações. Em Belém do Pará existe um vasto acervo amoroso, onde estão em exposição todos os amuletos originários do Boto.

Diferenças Boto x Golfinho

Na escola é comum ensinar que o boto é de água doce, enquanto o golfinho é de água salgada. De acordo com o biólogo Marcos César Santos, coordenador do Projeto Atlantis, que luta pela preservação desses animais, essa diferença não existe. Os golfinhos são animais da ordem dos cetáceos e eles se subdividem em duas famílias:

O nome boto ganhou força na região norte do país para nomear o pequeno cetáceo encontrado na região amazônica. O boto-cor-de-rosa é o maior dos golfinhos fluviais, com os machos atingindo 2,55 metros.

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Espécie Ameaçada e Turismo

No Brasil, existem duas espécies de cetáceos e ambas estão ameaçadas de extinção. O boto cor-de-rosa (ou boto-vermelho) e o tucuxi, encontrados na Bacia Amazônica. A população dos cetáceos na região vem diminuindo, pois muitas vezes o boto fica preso em rede de pesca ou é atropelado por embarcações. Apesar de não ser uma carne usada no consumo humano, a pesca ilegal gera lucro através do uso da carne como isca na pesca da piracatinga, um bagre amazônico vendido erroneamente como pescadinha. Os pescadores extraem cerca de 15 toneladas de piracatinga por ano e quase 90% da isca que utilizam é carne de golfinho rosado. A pescadinha é muito consumida na Colômbia e no Japão, por esse motivo, o uso da carne de boto como isca vem sendo o maior problema que a espécie enfrenta.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) publicou o Plano de Ação Nacional (PAN) para conservação de mamíferos aquáticos. Destas ações, 15 são voltadas apenas para o boto cor-de-rosa. Dentre as ações, está incluso o controle do comércio estadual e internacional da piracatinga. As ações vêm sendo cumpridas, mesmo assim está previsto uma diminuição de 50% na população dos botos pelos próximos 30 anos.

Outro problema que o boto-cor-de-rosa enfrentava, além da pesca ilegal, era o turismo. O PAN conseguiu regulamentar a interação do boto com visitantes, como aconteceu no Parque Nacional de Anavilhanas. Esse tipo de turismo é incentivado pelo ICMBio, pois antes desta medida, os turistas alimentavam o boto sem nenhum tipo de controle. Os botos estavam ficando obesos e as pessoas se aproveitavam para montar e fotografar. Até mesmo bebidas alcoólicas eram disponibilizadas ao botos.

Hoje em dia há flutuantes com instrutores treinados. Os turistas podem nadar com os botos, há horários definidos e os instrutores alimentam o boto em uma quantidade reduzida, para que ainda seja necessário que o animal vá a caça. A área é demarcada com boias para impedir o avanço de embarcações, no entanto, os botos ficam livres. Os visitantes se dividem em grupos e assistem uma apresentação sobre as duas espécies locais: o boto cor-de-rosa e o tucuxi.

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Assim como ocorre no Projeto Tamar, o turismo sustentável ainda gera renda local aos flutuantes, hotéis e comércio, além da informatização da população local e dos pescadores. É também uma maneira de gerar renda e desincentivar a pesca ilegal.

Esperamos que toda essa atenção da novela ajude nos projetos de preservação da espécie!

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Por Camila Piccini